para isto.
Projecto Clarice
"...juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar." (Clarice Lispector)
18.8.09
22.7.09
E se uma vaga de clariceanos invadisse as ruas?
(Fotografia de Patrícia Lino)
Caminhar para Clarice caminha-se descalço. Filmar para Clarice filma-se deitado. Não é que Clarice nos despe enquanto a lemos, não é que nem todos sabem disso.
«Se me perguntassem sobre Ofélia e seus pais, teria respondido com o decoro da honestidade: mal os conheci. Diante do mesmo júri ao qual responderia: mal me conheço — e para cada cara de jurado diria com o mesmo límpido olhar de quem se hipnotizou para a obediência: mal vos conheço. Mas às vezes acordo do longo sono e volto-me com docilidade para o delicado abismo da desordem.
Estou tentando falar sobre aquela família que sumiu há anos sem deixar traços em mim, e de quem me ficara apenas uma imagem esverdeada pela distância. Meu inesperado consentimento em saber foi hoje provocado pelo fato de ter aparecido em casa um pinto. Veio trazido por mão que queria ter o gosto de me dar coisa nascida. Ao desengradarmos o pinto, sua graça pegou-nos em flagrante. Amanhã é Natal, mas o momento de silêncio que espero o ano inteiro veio um dia antes de Cristo nascer. Coisa piando por si própria desperta a suavíssima curiosidade que junto de uma manjedoura é adoração. Ora, disse meu marido, e essa agora. Sentira-se grande demais. Sujos, de boca aberta, os meninos se aproximaram. Eu, um pouco ousada, fiquei feliz. O pinto, esse piava. Mas Natal é amanhã, disse acanhado o menino mais velho. Sorríamos desamparados, curiosos.
Mas sentimentos são água de um instante. Em breve — como a mesma água já é outra quando o sol a deixa muito leve, e já outra quando se enerva tentando morder uma pedra, e outra ainda no pé que mergulha — em breve já não tínhamos no rosto apenas aura e iluminação. Em torno do pinto aflito, estávamos bons e ansiosos. A meu marido, a bondade deixa ríspido e severo, ao que já nos habituamos; ele se crucifica um pouco. Nos meninos, que são mais graves, a bondade é um ardor. A mim, a bondade me intimida. Daí a pouco a mesma água era outra, e olhávamos contrafeitos, enredados na falta de habilidade de sermos bons. E, a água já outra, pouco a pouco tínhamos no rosto a responsabilidade de uma aspiração, o coração pesado de um amor que já não era mais livre. Também nos desajeitava o medo que o pinto tinha de nós; ali estávamos, e nenhum merecia comparecer a um pinto; a cada piar, ele nos espargia para fora. A cada piar, reduzia-nos a não fazer nada. A constância de seu pavor acusava-nos de uma alegria leviana que a essa hora nem alegria mais era, era amolação. Passara o instante do pinto, e ele, cada vez mais urgente, expulsava-nos sem nos largar. Nós, os adultos, já teríamos encerrado o sentimento. Mas nos meninos havia uma indignação silenciosa, e a acusação deles é que nada fazíamos pelo pinto ou pela humanidade. A nós, pai e mãe, o piar cada vez mais ininterrupto já nos levara a uma resignação constrangida: as coisas são assim mesmo. Só que nunca tínhamos contado isso aos meninos, tínhamos vergonha; e adiávamos indefinidamente o momento de chamá-los e falar claro que as coisas são assim. [...]»
A Legião Estrangeira
in A Legião Estrangeira (contos)
Clarice Lispector
16.7.09
Projecto Clarice # Nova Curta: primeiro dia de filmagens
(Fotografia de Patrícia Lino)
Finalizado o primeiro ano da Faculdade, posso-me agora dedicar e com tempo, a mais e novos passos de Clarice. Hoje, foi o primeiro dia de filmagens do novo video, que pretenderá levar o universo lispectoriano a ainda mais pessoas. Obrigada a todos aqueles que participaram, caminhando descalços pelas ruas. E àqueles que ainda virão a caminhar.
«O que nela se elevava não era a coragem, ela era substância apenas, menos do que humana, como poderia ser herói e desejar vencer as coisas? Não era mulher, ela existia e o que havia dentro dela eram movimentos erguendo-a sempre em transição. Talvez tivesse alguma vez modificado com sua força selvagem o ar ao seu redor e ninguém nunca o perceberia, talvez tivesse inventado com sua respiração uma nova matéria e não o sabia, apenas sentia o que jamais sua pequena cabeça de mulher poderia compreender. Tropas de quentes pensamentos brotavam e alastravam-se pelo seu corpo assustado e o que neles valia é que encobriam um impulso vital, o que neles valia é que no instante mesmo de seu nascimento havia a substância cega e verdadeira criando-se, erguendo-se, salientando como uma bolha de ar a superfície da água, quase rompendo-a...
Ela notou que ainda não adormecera, pensou que ainda haveria de estalar em fogo aberto. Que terminaria uma vez a longa gestação da infância e de sua dolorosa imaturidade rebentaria seu próprio ser, enfim, enfim livre! Não, não, nenhum Deus, quero estar só. E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu fizer será cegamente seguramente inconscientemente, pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! o que eu disser soará fatal e inteiro! não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.»
Perto do coração selvagem
Clarice Lispector
Perto do coração selvagem
Clarice Lispector
25.6.09
Clarice e [n]o Teatro
Se eu fosse eu
28 de Junho, 15h
TeatroCinearte
pela Companhia Simples de Teatro de São Paulo
A BARRACA tem o prazer de receber a Companhia Simples de Teatro de São Paulo num espectáculo único em Lisboa.
Se eu fosse eu, será apresentado no dia 28 de Junho às 15h na sala 2 do TeatroCinearte.
«Inspirada no romance Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres de Clarice Lispector, a peça expõe a iniciação de uma mulher (Lóri) em busca de si mesma. Enfrentando-se e questionando a sua própria natureza, ela descobre a experiência do encontro com o outro (Ulisses), descobrindo o amor.
Seguindo o mapa da aprendizagem sugerida por Clarice, a companhia mergulhou na sua própria trajectória desaguando assim, num espectáculo que contém, como a vida, um fluxo não linear. São narrativas fragmentadas. Ora os “actores/personagens” são inconscientes, ora despertam para a consciência. A peça não se fecha numa uma única linha narrativa pois entendemos que o espectador completa a trama com sua própria história. Parafraseando Clarice, nosso porto de chegada são os outros.»
Ficha Artística e Técnica
Direcção: Antônio Januzelli “Janô”
Actores: Daniela Duarte; Flavia Melman; Luciana Paez; Otávio Dantas
Texto: Cia. Simples de Teatro
Preparação Corporal: Clarissa Leme Rezende
Comunicação Visual: Fernanda Resende
Iluminação: Clayton Mariano/Denilson Marques
Operação de Luz: Paulo Candusso
Fotos: Melina Borba
Produção: Gesto Cultura e Comportamento
13.6.09
Medos e tempestades.

Miedo, 1975, Clarice Lispector
«Ah, se eu sei, não nascia, ah, se eu sei, não nascia. A loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente. O anel que tu me deste era de vidro e se quebrou e o amor não acabou, mas em lugar de, o ódio dos que amam. A cadeira me é um objeto. Inútil enquanto a olho. Diga-me por favor que horas são para eu saber que estou vivendo nesta hora. A criatividade é desencadeada por um germe e eu não tenho hoje esse germe mas tenho incipiente a loucura que em si mesma é criação válida. Nada mais tenho a ver com a validez das coisas. Estou liberta ou perdida. Vou-lhes contar um segredo: a vida é mortal. Nós mantemos esse segredo em mutismo cada um diante de si mesmo porque convém, senão seria tornar cada instante mortal. O objeto cadeira sempre me interessou. Olho esta que é antiga, comprada num antiquário, e estilo império; não se poderia imaginar maior simplicidade de linhas, contrastando com o assento de feltro vermelho. Amo os objetos à medida que eles não me amam. Mas se não compreendo o que escrevo a culpa não é minha. Tenho que falar pois falar salva. Mas não tenho uma só palavra a dizer. As palavras já ditas me amordaçaram a boca. O que é que uma pessoa diz à outra? Fora "como vai?" Se desse a loucura da franqueza, que diriam as pessoas às outras? E o pior é o que se diria uma pessoa a si mesma, mas seria a salvação, embora a franqueza seja determinada no nível consciente e o terror da franqueza vem da parte que tem no vastíssimo inconsciente que me liga ao mundo e à criador inconsciência do mundo. Hoje é dia de muita estrela no céu, pelo menos assim promete esta tarde triste que uma palavra humana salvaria.
Abro bem os olhos, e não adianta: apenas vejo. Mas o segredo, este não vejo nem sinto. A eletrola está quebrada e não viver com música é trair a condição humana que é cercada de música. Aliás, música é uma abstração do pensamento, falo de Bach, de Vivaldi, de Haendel. Só posso escrever se estiver livre, e livre de censura, senão sucumbo. Olho a cadeira estilo império e dessa vez foi como se ela também me tivesse olhado e visto. O futuro é meu enquanto eu viver. No futuro vai ter mais tempo de viver, e, de cambulhada escrever. No futuro, se diz: se eu sei, eu não nascia. Marli de Oliveira, eu não escrevo cartas pra você porque só sei ser íntima. Aliás eu só sei em todas as circunstâncias ser íntima: por isso sou mais uma calada. Tudo o que nunca se fez, far-se-á um dia? O futuro da tecnologia ameaça destruir tudo o que é humano no homem, mas a tecnologia não atinge a loucura; e nela então o humano do homem se refugia. Vejo as flores na jarra: são flores do campo, nascidas sem se plantar, são lindas e amarelas. Mas minha cozinheira disse: mas que flores feias. Só porque é difícil compreender e amar o que é espontâneo e franciscano. Entender o difícil não é vantagem, mas amar o que é fácil de se amar é uma grande subida na escala humana. Quantas mentiras sou obrigada a dar. Mas comigo mesma é que eu queria não ser obrigada a mentir. Senão, o que me resta? A verdade é o resíduo final de todas as coisas, e no meu inconsciente está a verdade que é a mesma do mundo. A Lua é, como diria Paul Éluard, éclatante de silence. Hoje não sei se vamos ter Lua visível pois já se torna tarde e não a vejo no céu. Uma vez eu olhei de noite para o céu circunscrevendo-o com a cabeça deitada para trás, e fiquei tonta de tantas estrelas que se vêem no campo, pois, o céu do campo é limpo. Não há lógica, se se for pensar um pouco, na ilogicidade perfeitamente equilibrada da natureza. Da natureza humana também. O que seria do mundo, do cosmos, se o homem não existisse. Se eu pudesse escrever sempre assim como estou escrevendo agora eu estaria em plena tempestade de cérebro que significa brainstorm. Quem terá inventado a cadeira? Alguém com amor por si mesmo. Inventou então um maior conforto para o seu corpo. Depois os séculos se seguiram e nunca mais ninguém prestou realmente atenção a uma cadeira, pois usá-la é apenas automático. É preciso ter coragem para fazer um brainstorm: nunca se sabe o que pode vir a nos assustar. O monstro sagrado morreu: em seu lugar nasceu uma menina que era sozinha. Bem sei que terei de parar, não por causa de falta de palavras, mas porque essas coisas, e sobretudo as que eu só pensei e não escrevi, não se usam publicar em jornais.»
Nota:
A crónica, primeiramente intitulada Brainstorm, foi publicada no Jornal do Brasil, a 22 de Novembro de 1969. Actualmente, o mesmo fragmento e já com o nome de Tempestade de almas encontra-se na colectânea de textos Onde estivestes de noite, publicada pela primeira vez no ano de 1974.
Clarice Lispector
19.5.09
Trabalhos e entregas para Clarice - II
Seguem-se os nomes dos estudantes da Escola Sec Oliveira Júnior que entregaram as suas propostas de trabalho, para a interpretação fotográfica do conto Feliz Aniversário de Clarice Lispector:
Ana Bastos
Josué Costa Moreira
Fabiana Santos
Filipa Mira
Ana Silva
Sofia Silva
Filipa Correia
Andreia Pinho
Ângela Silva
Eliana Ferreira
Leonardo Martins
Lucy Soares
Rui Santos
Marcelo Almeida
Vitória Andrade
Rita Almeida
André Marques
Ana Catarina Pinho
Ana Mónica Santos
Diana Magusto
Muito lhes agradeço, a vós, jovens. Não o fosse eu também e não soubesse eu de igual, o quanto significa e importa ter a força de uma iniciativa nos tempos que correm. Enfrentar multidões, unidas pelos seus quinze ou dezasseis de idade, não é uma tarefa fácil. Isso é cá garantido. Pedir-lhes que desenvolvam uma proposta, de cariz artístico, sem que ganhem uma qualificação, prémio ou algo minimamente parecido, é uma tarefa cuja facilidade é muito menor.
Mas nós conseguimos. Como me escreveram, a fim de me roubar um sorriso, - não sei se terá sido com essa intenção, mas de facto, mo roubaram - não tens de agradecer porque participamos com muito gosto. Fizemos esse trabalho para a exposição do Projecto Clarice lá na escola e foi uma experiência muito bonita e conseguimos pôr em prática a nossa originalidade.
Clarice e a boa literatura permanecem hoje, entre ainda mais pessoas. Jovens, talvez jovens de verdade. Muitíssimo obrigada.
Alguns dos traballhos já seleccionados (Parte segunda) - I

(Clicar para ver a grande)
"Para a Anita, estarem ou não estarem presentes os seus familiares no seu aniversário é a mesma coisa."
Fotografia baseada no conto clariceano Feliz Aniversário
Proposta feita aos alunos da Escola Sec Oliveira Júnior
Autor
André Marques
Alguns dos traballhos já seleccionados (Parte segunda) - II

(Clicar para ver a grande)
Fotografia baseada no conto clariceano Feliz Aniversário
Proposta feita aos alunos da Escola Sec Oliveira Júnior
Autores
Ana Catarina Pinho
Ana Mónica Santos
Diana Magusto
Com a participação especial de
Miriam Silva
Melissa Silva
17.5.09
Alguns dos traballhos já seleccionados - I

(Clicar para ver a grande)
Fotografia baseada no conto clariceano Feliz Aniversário
Proposta feita aos alunos da Escola Sec Oliveira Júnior
Autores
Lucy Soares
Rui Santos
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